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A carne...

  • Jun. 23rd, 2009 at 9:28 AM
Valéria Brandini - desassossego

A carne.
A carne e suas fibras que se entelaçam entre um amontoado de idéias coloridas com a ponta de uma agulha.
Eu percorro a vida desses desenhos e as epifanias que os geram a cada centímetro do deltóide a lombar.

A vida deles tem sentido.

O palco onde eles encenam a epopéia desse erro de Deus em carne branca, não.
Eu percorro a superfície. A forma é formadora, como já dizia Michel Mafessoli. Invólucro. Camuflado entre pin ups vestidas de marinheiro e imagens de morte.
Navalha na carne.
Sangra por dentro, sangra pelos olhos, sangra pelas palavras que eu ouço sem prestar atenção.
Mindfull body. e de quem era esse conceito do qual Canevacci falava mesmo? Um corpo cheio de mentes que fala pela carne.
E nesse momento é só ela que importa.
É preciso amadurecer para valorizar a carne.
É preciso tempo para apreciar o corpo cheio de mentes e odores, a pele rabiscada de sonhos e saber ler o que as palavras não sabem dizer.
(E quem disse que eu ouço o que ele fala?)
Sentir é uma forma de entender. Antropologia dos sentidos. Olhar carnal de Merleau Ponty.
Mãos e outros quatro sentidos.
Pensar é morrer um pouco. Doce vida suicida dos intelectuais. Conhecer é um ritual de morte e ressurreição.
Morro um pouco entre esses desenhos. A navalha me corta.
Ressuscito entre lábios e hormônios.

 


Em quinze anos de pesquisa sobre antropologia de gênero, o mundo das relações humanas nas suas mais corriqueiras manifestações cotidianas tem sido meu mais-que-perfeito campo de estudo. Não porque mantenho posição de pesquisadora o dia todo, mas porque para quem é acometido pela paixão pela ciência e vive na constante imersão no universo do conhecimento e pesquisa acaba tendo sua subjetividade comprometida por este "mal".
A coisa mais curiosa que vejo é como grande parte das pessoas, em geral as mais ignorantes (independentemente do nível de escolaridade, pois a ignorância é esse botox mental que paralisa a possibilidade do desdobramento da consciência e capacidade de abertura para o mundo), reclamam para si a posição de "técnico de gênero", assim como os duzentos milhões de brasileiros que em época de copa do mundo se tornam todos técnicos de futebol, sabem tudo o que é, deve e não deve ser feito "no jogo".
Ouço coisas de homens e de mulheres. Coisas que na minha permanente condição de nada saber (e, portanto estar aberta a conhecer e aprender sobre o universo dos gêneros e suas relações) me deixam entre a consternação e a gargalhada contida.
E é claro que essas opiniões de connoisser do assunto que as pessoas falam são proferidas por indivíduos (homens e mulheres) que, por conta de visões de mundo e atitudes observadas (as quais seguem determinados padrões), nos possibilitariam categorizar, obviamente sem muito rigor científico, tais sujeitos em determinados grupos.
Observamos aquela categoria de mulher passiva disfarçada de compreensiva para quem toda atitude machista acaba sendo justificada pois "homem é assim mesmo" (assim como, cara pálida?), as ofensas e discriminações são compensadas pois "Jane quer a banana protetora de Tarzan" e o negócio é "manipular para se conseguir o que se quer". (Aí eu imagino o que acontece quando o Tarzan cansa de brincar de pai e acha uma mulher de verdade que depois de comer a banana não escorrega sua dignidade humana na casca dela...)

Aí tem aquele outro padrão de comportamento que culpa o homem por tudo. Então o "homem é assim mesmo" tem o sentido de "eles não valem nada, vão sempre te magoar, são sacanas, numa profecia de auto-realização que denota que as relações se desenrolam numa permanente espera da falha do outro. Elas "compreendem o homem" categorizando "defeitos masculinos", como se ações de traição, agressividade e desprezo não fossem atitudes humanas presentes em ambos os sexos, mas pertencessem apenas ao domínio masculino... Em geral, namoram, se casam e vivem como num jogo de WI, sem perceber que a beligerância se torna o ponto de troca da relação. Nesses casos, o título do filme ´Dormindo com o inimigo´ tem a tônica mais adequada.

No caso dos discursos que ouço do lado masculino, existe aquele que coloca a mulher num categoria de permanente estranhamento, tal qual era até o fim do século XIX, quando as mulheres eram consideradas seres da mesma seara dos animais e das crianças (pois não tinham acesso à educação e cultura, então não podiam, nem teriam como, participar dos assuntos, compartilhar momentos e decisões da vida adulta e emancipada, então a mulher servia à procriação e à vida doméstica, alheia à cidadania e dignidade humana na vida em sociedade) esta categoria masculina sente-se profundamente constrangida, incomodada na presença de outras mulheres na vida social, buscando sempre formas de atacá-las sutil ou deliberadamente, tentando depreciar sua condição como sujeito, colocando-a sempre como objeto a servir o universo masculino. Em sua maioria, pelo que pude observar, esses indivíduos vem de criações machistas, podem esconder uma orientação homssexual contida ou possuem um profundo complexo de inferioridade mascarado, buscando refúgio sempre em grupos ou confrarias marcadamente masculinas. Para estes também, embora se relacionem e constituam família com elas, mulheres são o inimigo a ser temido e mantido em distância emocional.

Um outro tipo de discurso, onde curiosamente já ouvi exatamente as mesmas palavras de alguns homens dessa "categoria", profere que o homem gosta de uma mulher enquanto "está gostando de comê-la". Ouvi a frase: "o cara começa a comer a mulher e gosta e se ela não for muito chata, ele fica com ela." Adorei ouvir isso. hahahahahahahahahahahaha. Ao que perguntei: "Então esse é o princípio de escolha, o cara comer e gostar?" Resposta: "É". Achei isso bárbaro, pois esses caras devem ser verdadeiros atletas sexuais ou estão a beira de um infarto de tanto toma Viagra, pois estimando que quem copula todos os dias (...?)  faz isso por uma hora mais ou menos, o que se faz com essa mulher no restante das 23 horas numa relação?


Essas anedóticas categorizações são poucas de umas duas dúzias que já verifiquei e que na verdade, para além do espanto por um lado e divertimento por outro, me despertam um certo pesar quando penso que a diferença que serviria de mútua complementaridade se converte em desigualdade a afastar pessoas da verdadeira busca e conexão que as realiza: a de figuras humanas, antes de personas sexuais. Um homem busca uma mulher, mas esta mulher não é apenas um ser do sexo feminino, para realizá-lo ela tem que antes de ser mulher, ser sujeito e não objeto, pois seres desejantes que somos, não nos realizamos na aquisição do objeto, mas na conquista da abertura para a troca com o sujeito. É a conversão do sujeito em objeto que gera esse imenso vazio em que vivem as pessoas que "objetificam" as outras.

Uma mulher busca um homem, mas este homem não é apenas este ser masculino, ele é carne feita de sonhos, matéria de carga efetiva humana, antes de sexual, antes de gênero, antes da divisão que nos despedaça em metades polarizadas.
Não somos essas metades a serem completadas pelo outro, somos inteiros inacabados, como dizia R. M. Muraro, apenas um ser de gênero (masculino ou feminino) completo pode ser capaz de se doar ao outro, para assim, pela troca acabar de constituir-se pelo vínculo Humano, neste caso, com outro ser, de outro gênero. Temos em nós todos os elementos pra a completude, mas precisamos finalizar essa construção Humana, com a ajuda do outro. Mas o esquartejamento da figura humana pelos que colocam os sujeitos em gavetinhas de personas sexuais constitui o eterno inacabar-se que torna humanos, homens e mulheres não apenas inacabados, mas de fato, incompletos, dado que não conseguem relacionar-se com a porção do outro gênero que possuem dentro de si. Homens e mulheres possuem em si princípios masculinos e femininos, em diferentes proporções e isso é uma determinante fisiológica que perpassa dimensões mentais e emocionais.

manandwomantree.jpg man woman tree image by lolalolacherrycola

Por termos estes dois princípios, nos sentimos atraídos e temos trocas com sujeitos do outro gênero, mas quando negamos ou rechaçamos esse outro gênero, rompemos com a possibilidade do "acabar-se, finalizar-se", negamos no outro justamente a porção menor que temos em nós e que é ontologicamente, razão de nossa completude. É essa interação de princípios masculino e feminino que nos constituem Humanos que permite ao homem torna-se artista e a mulher tornar-se cientista, pois cria a aptidão masculina para a arte e a aptidão feminina para a racionalidade.

O seccionamento interno dos princípios masculino e feminino nos torna "seres pela metade" que jamais poderão completar-se com o outro, ao invés do que deveria ser: seres inacabados que se constroem e finalizam a partir das trocas com o outro. E então se vive o eterno limbo de grande parte das relações: solidão a dois. Casais que vivendo juntos por anos compartilham ao invés de trocas entre sujeitos, imensos vazios entre objetos que é o que são um para o outro. Uma solidão ontológica pois que na presença do outro o faz mais só em relação a si mesmo.
E culpa-se o outro sexo por isso. E se agride o outro sexo por isso. E se usa o sexo desprezando o sujeito do outro sexo por isso.
E novamente, entre as arestas pontiagudas e interstícios vazios, cada um no seu incompleto e permanentemente inacabado quadrado...


 

Deus escorre pelos fluidos femininos

  • Feb. 14th, 2009 at 11:18 PM
fierce





 - Por que você chora,mulher?
 - Eu choro porque gozei. Você não entenderia.
 - Foi algo que eu fiz?
 - Não. Foi Deus. Foi Ele que me fez mulher.
ecstasy Dali
Ele tem o falo.
Ela tem o êxtase.
Ele recolhe o falo com a alma intacta.
Ela recolhe a alma com o corpo em flor. 
Closer (to God)- Nine Inch Nails
Lacan já dizia que a mulher goza com Deus, mas não sabe que goza.
E por que goza Santa Thereza?
Porque ela é mulher. Ela É todas as mulheres, em sua simbiose corpo/alma, que está para além dos sistemas simbólicos dos oito mil anos de patriarcado.
O corpo que goza não teme a morte, pois não sublima, ele é o corpo inteiro, na integridade da complexidade humana, na sensível racionalidade da aceitação em morrer para nascer inteiro. O homem sublima, constrói um universo de significados na impossibilidade de confluir sexo e afeto, razão e emoção. A mulher goza em êxtase, ela integra Deus e carne, corpo e mente, Eros e Psique. É nesse abraçar Eros entre as pernas que a mulher salva o mundo de Tanatos, o instinto da morte que gera a fragmentação do ser inteiro.
Saint Theresa - Bernini
Elas vivem num universo de significados construído em torno do masculino e sua forma de se amoldar à existência. A dicotomia entre razão e emoção é um postulado desenvolvido conforme as características da sublimação masculina. Deus está no alto, a carne está abaixo. A dicotomia que cria polaridades nos sistemas simbólicos masculinos que amoldaram o mundo fragmentou a existência, construiu a falta, o buraco, a ausência de si mesmo.
Mas haverá na existência humana dicotomia de fato? Se toda a realidade é uma construção cultural erigida a partir de uma visão de mundo, como afirmar que existe realmente uma polaridade entre os elementos que nos formam, entre a razão e a emoção, entre a sensibilidade e a inteligência?
A mulher que goza em êxtase é incompatível com o homem cujo gozo se esgota no falo, Lacan já dizia que apenas os poetas, artistas e místicos - aqueles que integram mente e corpo - tem acesso de fato à mulher, são compatíveis a ela. 
E cada um no seu quadrado? Não! Já são oito mil anos de se tentar expremer a esfera dentro de um quadrado, com o prejuízo real dos danos nesta esfera, arranhando suas bordas, fazendo sangrar sua carne. Homens tão amados e aceitos com seus ângulos retos e ferinos, tão vistos por Elas como um Todo apesar de sua tentativa de dividir o mundo em compartimentos antagônicos, deixem que a esfera tome o cubo de um amor que o faça inteiro, que o devolva a si mesmo, que o reintegre a si na completude de se fundir ao Outro.
Theresa...
Theresa não sabe que goza.
A santa chora.
A mulher extasia.
Deus escorre pelos fluidos femininos...


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Modelo não. "I´m the real thing"

  • Dec. 6th, 2008 at 11:14 PM
noir
Quando eu tinha 20 anos me perguntavam se eu era "modelo". Eu dizia, modelo não, I´m the real thing.
Pela etimologia, modelo significa: "representação em pequena escala de algo que se pretende executar em grande."
Mulheres de verdade são grandes projetos a serem executados pelo talhe da vida e não pela constrição das medidas. Grandes apostas, grandes dores, grandes amores. Grandes imperfeições sagradas do dedo de um Deus louco que nos deu a dádiva do sabor da existência.
Grandes ancas, grande ventre, grande vagina dentada a devorar o mundo, com a fome que a anorexia de uma "representação em pequena escala" (modelo) extirpou do seio fértil de uma imperfeitamente plena mulher.
O modelo representa em grande escala o que é justamente "pequeno na mulher", esse apequenamento de um ser maravilhosamente imperfeito que tem na unicidade de cada corpo idiossincraticamente construído, as marcas de uma carne desigual que se converte em poesia assimétrica, concreta, atávica.
Modelos de um corpo extirpam da mulher sua alma voraz. Modelos de um corpo segregam desta carne-fêmea a alma feminina em gavetas chovinistas de mediocridade. Modelos de um corpo representam em escala desumanizada o que é ser não-mulher, ser o objeto de um sujeito-fêmea que em função da desumanização do corpo convertido em modelos, sacrifica sua mente de proproções naturalmente voluptuosas.
Bendita essa carne farta que se expande em sonhos, benditas essas formas generosas que extrapolam as medidas constritivas, que expõe a gula dos sentidos que abocanham a vida em seu sabor mais verdadeiro, com a voracidade do animal cuja fome representa sua essência de provar o mundo.
Bendita bunda grande, bendita celulite, benditas mulheres que tem no corpo farto, a alma de seu tamanho.
Scot Hutchinson


O sentido das ausências

  • Nov. 14th, 2008 at 10:22 PM
Elucubração

Lurdes acorda todo dia às 5 da manhã. Arruma a casa, lava a roupa e prepara o almoço para deixar para o filho paralítico, que com 26 anos tomou um tiro de bala perdida numa festa e nunca mais vai andar. Depois pega dois ônibus para chegar na casa de minha mãe no interior. Chega às 8:00hs da manhã. Sai por volta de 19:30hs da noite. Amanhã vai ser o mesmo, em outra casa, vida de diarista.
O filho cuidava da maior parte do sustento da casa até ser baleado. Agora Lurdes, com 56 anos, faz faxina todos os dias para poder sustentar a ela e ao filho.
Meu pai sempre reclama que não sabe onde ela coloca suas coisas. Sempre reclama que ela fala muito. Sempre reclama...
Hoje o filho de Lurdes amputou as duas pernas. Teve trombose porque pobre não tem como fazer fisioterapia. Porque ele passa os dias entre a cama e a cadeira de rodas esperando ela chegar da faxina.
Hoje eu me senti tão pobre. Hoje eu senti que tenho tão pouco. Porque tenho apenas lágrimas pra ler o mundo do Outro.
Hoje eu sou menos, porque eu tenho olhos marejados e ela tem um sorriso para o filho sem pernas.
Sou olhos de vergonha e mãos e pernas que tocam o nada, porque Lurdes sabe o sentido da vida e eu não.
É gente humilde, que vontade de chorar...

Hombres y habanos

  • Nov. 7th, 2008 at 10:47 PM
noir

Dos charutos e dos homens me interessa a poesia, o conhecer sensorial que não precisa de explicações de connosseurs, de marcas e vitolas, de capas e cinzas, mas da inebriante fumaça que ocupa o espaço dos sonhos, das sensações e aroma, da queima dos olhares e do fluxo dos sentidos. Que seja puro, sem nem sempre ser cubano. Que seja robusto, na delicadeza desmascarada de ser realmente homem.
Da poesia que sugo em suaves baforadas, sem pressa. Do sabor que me toma a boca, sem culpa. E na névoa que se desprende emanam os risos de um fim sempre reticente, num cinzeiro de cinzas compactas, em mãos que desentrelaçam para um suspiro. Descansar sob a fumaça. Reacender com fogo em cedro.
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Das Intersecções Insólitas

  • Aug. 15th, 2008 at 10:01 PM
morning

Tão difícil determinar: Grupo. Teoria antropológica. De Malinowski a George Marcus e em meio à aula - como definir o Nós. Como definir o Outro. O que me define, o que me exclui e o que me indetermina, o que de mim não é o Outro quando sou eu mesmo entre cercas e pontes de concreto, de carne, de ar.
Massimo Canevacci se faz presente, como quando orientou meu doutorado, arrastando suas tamancas italianas em seu apartamento em Piramides, Roma, olhando pela janela onde avistamos o túmulo de Antônio Gramsci, no cemitério ecumênico. Ele me diz: Uma antropolgia das intersecções. E sorrimos. E é.
Somos multivíduos policulturais, de grupos que não se agrupam e escorrem, pelas ruas da metrópole de discursos gritados nas paredes pichadas e nas cores dos cabelos e dos pelos e dos olhos que enxergam para além da epiderme.
E nos interseccionamos naquelas partes em que somos grupos, que somos iguais, em que olhamos o Outro para enxergar a nós mesmos nestes pequenos interstícios que nos aproximam. 
Há uma intersecção maior onde me vejo no Outro. Um intervalo entre a persona e si mesma, onde minhas mãos estão nuas e meus pés descalços e posso deitar minha cabeça sobre um ventre-útero que me recria, me abriga num colo de ninar, numa nudez de reducionismo fenomenológico, sem perguntas nem respostas. Um oásis-intersecção que chamo de Intimidade.  

Íntimo. Intimidade. Que está muito dentro. Que atua no interior. Entranhável. Nas intersecções entranháveis germinamos esse Outro que nos aproxima de nós mesmos. Intimidade de gavetas abertas para santos e demônios internos que me contam histórias, quando céu e inferno se encontram no horizonte do "Eu te aceito. Assim."  E assim me recriam e ao Outro.  Fecundamos as possibilidades infinitas de percorrermos caminhos de corpos e almas de umbigos colados e mãos entrelaçadas. 
Uma intersecção de almas entranhadas nas visceras de um corpo duplo. Indeterminações múltiplas, mas sem dúvidas, nem medo. Campos imponderáveis, pequenas searas de riso e inquietude. Vontade. Tomar sem pedir e ser tomado sem sentir, fluidamente, continuamente, uma dança, um tango, fusão e experimentação. Ser sem precisar definir. Não-grupo. Uno. Simbiose. Flor e beija-flor. Nosso beijo.
Uma Antropologia da Intimidade. Uma Íntima Antropologia. De buscas concretas a um objeto que me entranha. De investigações de pontos e pêlos, de marcas e dedos. De Olhar Etnográfico em olhos que não se esgotam, pois que brilham e me decifram, sem ciência nem método, sem dialética nem hermenêutica, uma ontologia das pupilas, que quando se abrem me mostram Deus.
E nada mais. Apenas o fascínio do observador participante, o observador íntimo ao Outro, aos seus padrões e discursos, aos seus cabelos e cheiros, esparramado no chão entre livros e pétalas, na inocente tentativa de definir-se o Outro entranhado em si.

noir

Todo mundo reclama tanto da solidão. Mas existe um estar só que amo e não abro mão, que é o estar só, num conluio afetivo com a madrugada de São Paulo.
Os amigos, os amores, a balada, o carinho, os venenos líquidos, a dança, o acasalamento, a fumaça de cigarro e os odores ácidos dos corpos que vibram... Depois meu deslizar erótico pelo corpo úmido, acre e noir das ruas da metrópole que tomo como minha, como um amante ciumento que arrebata a cidade pelos cabelos, que violenta seu sexo com paixão e ternura, rodando pelo asfalto molhado de suor e chuva.

Entro no meu carro, são 3:45 am. Ligo o som, uma seleção para mim e minha amante que me cobre com seus cabelos de noite e neblina suave. "You move like honey", Fionna Apple, and I try to move your streets like honey. Depois vem Nine Inch Nails dizendo I wanna fuck you like an animal, eu e Trent Reznor aceleramos pela Augusta, dos sagrados Jardins rumo ao profano centro e eu invisto com uma violência apaixonada entre a Paulista e a Peixoto Gomide. Depois um abraço lento de corpos suados, com "My Funny Valentine", para minha namorada de olhos de neon e gloss nos lábios torneados pela chuva da noite. 
Passo pelos personagem que te habitam, como tatuagens na tua carne, de seios falsos e alma verdadeira, de olhos entorpecidos e coraçôes bestializados, escrevendo histórias proscritas pelo teu corpo, te fazendo sangrar pra viver e procriar os filhos do teu doce e sublime pecado, uma metrópole feminina com um falo gigante, um híbrido polissexual que derrama sobre as figuras noturnas seu orgasmo entre aventuras e descobertas.
E eu rodo pelos teus braços e pernas, por tuas costas e ventre, numa fantasia infantil de amazona em seu cavalo, como Lady Godiva, de alma nua que minha metrópole conhece, nua fico como menina e mulher, com falo em alma e a rua entre meus seios, rodo lendo a crônica viva de teus habitantes malditos, esperando que a manhã te deflore e te tire de mim e que eu durma feliz e cansada, com um meio sorriso nos lábios e suspirando depois do sexo, enrolada nos meus lençois negros, como a noite que depois te trará de volta ao meu encontro.

Para minha noite S.P.

Da autonomia existencial feminina

  • Aug. 4th, 2008 at 12:00 AM
cenários
Os anos 1980 trouxeram as mulheres independentes (aquelas figuras de ombreiras cafonas que queriam ser Angélica Houston), os anos 1990 trouxeram as anoréxicas (que idealizavam modelos sem perceber que o conceito de modelo é o de uma mera figura ôca e não uma mulher em si)  e ainda não sei conceber exatamente o que é a mulher do século XXI, a não ser pensá-la como conceito disjuntivo, destinado à não-síntese, nos moldes de Massimo Canevacci. 
Odeio esses chavões do tipo "mulher independente". O que é ser independente? Há quase um século Marx, influenciado pelas teses de Feuerbach usava o exemplo do povo judeu (sendo ele mesmo judeu) para dizer que não se podia ter autonomia política se não houvesse autonomia existencial. Existem mulheres financeiramente e socialmente independentes com zero de autonomia existencial, (que escondem por trás da conta bancária, do escritório decorado por um designer moderno e da vida "dita independente", uma desesperada vontade de ser Cinderella, aguardando o príncipe que irá colocá-la atrás do fogão) se reduzindo a modelos "corporate made" ainda tentando carregar a vida sob as ombreiras dos anos 1980. 
Talvez seja uma certa autonomia existencial não encaixada em modelos pré-estabelecidos que vejo emergir sutilmente nas mulheres contemporâneas. Um encontrar e viver consigo para poder dividir com o Outro, um amar gratuito que não busca papéis sociais (pai, marido, namorado, caso) mas homens, apenas e plenamente homens (algumas preferindo mulheres também, por que não?) e que descobre a si mesma numa troca de mãos abertas sem muito discurso, mas com uma entrega lúdica, afetiva e prazerosa, que traz o Outro (homem) para brincar nesse paraíso há muito tempo perdido que é o universo interno de uma mulher, ao invés de tentar adequar-se ao papel esperado nesse sociedade chovinista impulsionado, em muito pelas próprias mulheres. 
O mundo é masculino, temos dezesseis mil anos de um mundo criado por e para uma forma masculina onde tentamos nos adaptar como uma peça de seda pura que é amassada e comprimida para ser guardada numa gaveta na qual não cabe. E buscou-se, de muitas formas (tantas erradas) encontrar uma forma feminina de ser e estar numa sociedade masculina. 
Mas após tentativas que vão de ombros largos e palavras rudes a um negar-se o corpo para existir socialmente, uma nova forma, sem padrões determinados, não-linear e pouco discursiva, parece emergir no conluio feminino num prazer existencial tal qual a 'comunidade emocional' de que nos fala Michel Mafessoli: "é o estar junto e vivenciar as práticas do grupo, sem objetivos políticos ou outros fins determinados que não o existir plenamente", que caracteriza esse novo ser mulher. Não o ser-mulher para o homem, mas com o homem, não ser-mulher para auto-afirmação, mas apenas ser, com a autonomia existencial necessária para não se provar nada a ninguém.



Mulheres sendo e existindo na noite paulistana

Sex, the City and the Menopause

  • Aug. 1st, 2008 at 3:56 AM
morning

Não vi e não gostei do filme Sex and the City. Me abstive a ponto de saborear os comentários e, praticamente, toda a narrativa, a partir das “comadres” que foram assistir à obra. Nunca suportei comédias românticas, amigos, namorados e o cara da locadora sempre souberam que jamais poderiam me indicar um filme da Julia Roberts. Sou mais Zé do Caixão e Dario Agento e me orgulho muito disso.

Contudo, embora não tivesse paciência para assistir um episódio inteiro, gostava de algumas coisas do roteiro de Michael P. King, principalmente os pontos que faziam figuras como Francis Ford Coppola meterem a boca na série, dizendo que ela mostrava um “exemplo ruim para as jovens mulheres”. Foda era ser chamada de Carrie (A estranha e phaxion do filme), pois eu e a personagem não penteamos o cabelo, creio eu. Tudo bem ser a vagada da Samantha, a workaholic caricata ou até mesmo a pudica meio retardada, mas Carrie era a pior. Mentira. Pior mesmo, foi o fim romântico da jornalista com o Mr. Big. O casamento foi o clichê dos clichês de Hollywood, da mulher que se apaixona justamente pelo cara fodão pois acha que com ela vai ser diferente. No mundo real, toda mulher que não baba já descobriu que isso é historia de boto, mas na série, o conto de fadas pastiche é um atentado contra o mínimo denominador comum de inteligência feminina. 
E como se não bastasse, Samantha já passou dos 50, logo, logo, a terra é que há de comê-la. Sarah Jessica virou aquela Sarah da piada do judeu morrendo (em que a mulher devia estar cuidando da venda, ao invés de estar com ele no leito de morte), judia caricata de piada que vende até o cabelo de xoxota para outra dondoca fazer aplique e que assim conseguiu viabilizar o filme pra ganhar uma boa grana. A morena meio retardada é papagaio de pirata em Hollywood e a intérprete de Miranda já pulou pro time de Degeneres, saída interssante a ser pensada para o filme, depois do Cintia Nixon fazer na série a mulher-independente-bem-sucedida que adota marido que dá cueca freada pra ela lavar.
SEX AND THE CITY 123.jpg

Da maturação feminina

  • Jul. 28th, 2008 at 2:32 PM
Lela...
Rrriot girl? No. I´m a silent-acting woman, baby!
Achei ontem no Orkut uma comunidade muito interessante sobre 'mulheres maduras que gostam de heavy metal'. Achei a idéia de tia metaleira muito engraçada, pois fiquei pensando se me encaixo no perfil. Bem, como sou filha única, não sou tia anyway, mas a idéa de "mulher madura" é um arquétipo insalubre que acaba servindo como justificativa e punição para as mulheres chovinistas. Pra mim, o que tá maduro logo, logo cai do pé. 
Amadurecer, maturar (no melhor caso, com álcool, certamente), aquela história de melhores vinhos, de que se fica mais sábia, de que se tem mais equilíbrio, 'As pontes de Madison', as idéias de Simone de Beauvoir sobre a Velhice e Sérgio Reis e sua 'elegia' (ou analogia) sobre mulheres e panelas. 
Na metade entre os 30 e 40, pra mim tudo isso é bullshit. A verdadeira coisa que a 'maturação' (imersa no líquido da vida), me rendeu, foi que aprendi a ser criança sem culpa nem remorso, a brincar de viver os dias com um prazer infantil de gargalhadas baratas e choro desinibido. Sem essa história de adultescente, pois na minha maturação não cheguei lá ainda. E nem vou chegar. Talvez no máximo uma puberdade, pra começar a coçar o clítoris com o controle remoto de novo enquanto sonho com o que há (ou não) por trás da máscara do Paul Stanley do Kiss. 
Ter tempo pra não fazer nada. Brincar do que quero ser, não quando crescer, mas agora, cabendo nos sapatos da minha mãe, mas resolvendo trilhar meu próprio caminho, vestindo a fantasia da minha pele como os vários eu-personagens e vendo nas nuvens o que meus olhos dizem sobre mim.
Infantil. Será? Pois os sonhos hoje não são devaneios, são objetivos. Se perde a ilusão mas não o gosto pela brincadeira, de se enterrar na areia ou entre as pernas do ser amado, de rolar na grama e na cama, de se lambuzar de sorvete e de outros fluidos pra depois dormir com a barriga e o coração cheios.
E enxergar. Ver o mundo sabendo que não se sabe. Com olhos de primeira vez todas as vezes, com mãos que buscam e dedos que sentem, como criança que chama a outra pra brincar.
Quer brincar comigo?

Toda mulher tem um preço

  • Jul. 26th, 2008 at 8:05 PM
Fontana di Trevi

Numa conversa de bar na noite passada, um rapaz se aproximou e, tentendo ser galante (mas conseguindo ser bem o inverso disso) começou a falar sobre as mulheres atuais, que são muito exigentes, só querem homens com carrão e blá, blá, blá, numa conversa that gives man a bad name que chegou ao ápice com a seguinte inferência: "Toda mulher tem um preço". E antes que meu olhar de desprezo pudesse fluir em sua plenitude, ele foi além: "Qual o seu preço?"
Ao que eu respondi pacientemente: "Meu caro, toda mulher tem um preço sim. Eu, por exemplo tenho um preço muito alto, que você nunca poderá bancar." 
Esperando que eu fosse me ofender com a pergunta, ou dizer que "não sou dessas", o rapaz se surpreendeu, ao mesmo tempo em que se sentiu ofendido por eu tê-lo "chamado de pobre", supostamente escarnecendo de seu status econômico. Com ar de "Tarzan tem banana pra Jane", o mancebo questionou: "Mas o que leva você a pensar que eu não tenho grana pra te bancar?"
Então respondi: "Aí está seu erro. Pois da moeda que me compra, pelo que vejo, você não tem um tostão. Todo mundo está a venda sim, eu por exemplo me vendo pra muita gente. Uma pessoa me compra na rua com um sorriso de bom dia, com um abraço amigo, com um beijo apaixonado e, principalmente, com uma conversa inteligente, essa, a moeda que em você, percebo um saldo negativo."

morning
Outro dia ouvi de um leitor que o nome do meu "blogue" é dramático. Erro. Em primeiro lugar, isso não é um blogue, é um diário - livejournal - um espaço em que escrevo, não para ser lida, apenas para ser. Em segundo lugar, genericamente a idéia de drama é sempre associada ao sexo feminino, digo isso porque dramático não é este nome e sim, sangrar todo mês, todo dia, num silêncio de cordeiro da expiação. O mundo é masculino, mas a Terra é feminina, cíclica, como a mulher, (por isso dramática?) esta, obrigada a adaptar-se num mundo linearmente "estável", masculino, a ignorar sua real (surreal?) natureza. Curioso é que as pessoas não postam aqui suas idéias sobre estes assuntos, ao invés disso me mandam emails - medo de dramatizar? Não. Medo é uma coisa "feminina"... Homens são apenas... prudentes. 
Curioso é também, que todo o mito do amor romântico é uma criação masculina, uma concepção, esta sim, verdadeiramente dramática, gerada em tempos onde a união por razões afetivas era pois, uma utopia  (esquecemos que há apenas 100-150 anos, nas sociedades ocidentais a união civil baseada na escolha amorosa é uma constante). E é claro que este mito tornou-se a razão de viver daquelas que só existiam (mas na verdade não viviam) para copular, parir e cuidar da casa e da prole. Criada para o abate, a mulher se limitava a sonhar ser abatida "com amor".
Gustav Klimt - LoveLove - Gustav Klimt
O amor romântico é uma doença social da qual padecemos docemente. Ele não é o amor de fato e sim um mal afetivo que conhecemos como paixão, infatuation, para os norteamericanos e, por ironia, da mesma natureza que levou Cristo a cometer a loucura (paixão, no dicionário Aurélio = loucura) que gerou uma das maiores instituições atualmente vivenciadas no mundo ocidental - segundo a qual a mulher continua a ser cordeiro da expiação e gado para cria e abate.
O mal do amor romântico é, de fato, o que separa o Homem do amor real, não da vida inteira, mas o de cada dia e de todos os dias, a construção da simbiose que serve para que nos vejamos e nos encontremos e nos aceitemos através do Outro. O amor romântico está para o coração como a moda está para o corpo - a imposição de padrões que apenas algumas "anomalias genéticas conhecidas como modelos" (frase da ótima Nancy Etcoff) alcançam, fazendo com que o restante das almas presas em corpos reais se desumanizem para atingir uma forma quase fictícia.
Daniel Boorstin escreveu, na obra "The Image" (1962) que somos vítimas de nossas expectativas extravagantes. Queremos conforto, mas também queremos aventura, quermos estabilidade, mas também nos sentimos impelidos a arriscar, queremos amor, mas quando o temos, queremos a paixão/amor romântico. E lucrem Tom Jones, Barbara Cartland e a família de Dolores Duran...
Dali - Agony of love
Me desculpe Robeto da Matta, mas a fábula das três raças tristes (que morrem por amor) fundadoras do Brasil parece estar enraizada no imaginário brasileiro de tal feita que o amor romântico no País só perde para a fanática paixão por futebol - que sempre achei um tanto quanto pederasta, mas isso é outra história...
E enquanto isso, como vivem os aborígenes onde não existe a idéia de amor? Bem, obrigada. Sem esperar o amor derradeiro, mas tocados de uma doçura da alma quando o Outro está, e de um vazio existencial de si mesmo quando não se encontra refletido nas pupilas brilhantes desse Outro... Sem modelos de corpos, sem modelos de afeto, mas envoltos na defectível e por isso sublime realidade que nos mostra que a perfeição é uma ilusão que nos separa da felicidade.
 

O indecifravelmente masculino

  • Jul. 17th, 2008 at 10:41 PM
Valéria Brandini - desassossego
Parece que tudo é uma questão de códigos... Que não compreendemos. Nem toda semiótica poderia decifrar estes sinais cujos significados não são totalmente cognoscíveis nem mesmo para os emissores, homens e mulheres, perdidos na tal crise de categorias de gêneros que engorda contas de psicanalistas e enche salas de espera em clínicas de depilação masculina.
Homem Vitruviano - Leonardo Da Vinci
Quando Trent Reznor lançou o álbum Fragile, o músico conseguiu interpretar o sentimento de milhares de homens mundo afora perdidos entre as inquietações do primeiro sexo, aquele, cuja etimologia jamais combinaria com o termo fragilidade. Mas não são apenas as lágrimas assumidas e a divisão das tarefas, a anorexia masculina e o disfarçado desejo em ser homem objeto... Existe um grande buraco que não consegue mais ser preenchido com cervejadas entre amigos e paixão de futebol, pelo sexo como prática identitária e o falo como arma - pois este, hoje se volta contra seu dono - uma foda se converte numa busca afetiva, nem tanto do Outro, mas por aquele Eu que não se encontra mais nos arcaicos códigos de virilidade movidos a testosterona e vulgares demonstrações de poder físico.
Criança geopolítica obervando o nascimento de um novo homem
Desde criança sempre achei mais divertida a companhia dos meninos, talvez por que eu fosse grandalhona, sempre mais alta que a maioria das meninas, condenada, por isso, a sentar no fundo da classe, o tal fundão dos bagunceiros e excluídos. Nunca vi os homens como meros canalhas, via sim, essa fragilidade, contida, amordaçada, travestida em gestos rudes e uma distância afetiva quase inocente. Hoje vejo que ela se converte em egocentrismo e isolamento, entre o bronzeamento artificial e o futebol, o medo do envolvimento - na verdade, um medo de não saber o que ser na relação - e o desenvolvimento dos dotes culinários.Publicidade Dolce & Gabbana
Vejo homens perdidos entre papéis que não são mais seus, entre orgasmos sem prazer e músculos sem força. Vejo sinais de uma indecifrável poesia cuja língua não compreendo, mas cuja música me envolve num abraço sedutor, os sons de um coração agora liberto, batendo confusamente sem rumo, perdido na melancolia da liberdade de sentir sem amarras, a mesma de um coração feminino.
Talvez as novas gerações tenham a resposta, talvez as meninas que se beijam no ginásio estejam mais aptas a compreender e confortar a fragilidade masculina. Ou talvez, depois de ter experimentado o papel de objeto (outrora feminino), o homem possa enxergar o segundo sexo, agora, em primeiro plano.

Dia Internacional do (Finado) Rock

  • Jul. 14th, 2008 at 12:08 AM
Valéria Brandini - desassossego

 Dia Internacional do Rock e eu incorporo um Arnaldo Baptista embolorado clamando "Onde é que está meu rock n´ roll?"
Rock n´Roll - Salvador Dali
Um vez vi um especial sobre rock music, lá pelos anos 1990 -92, com várias bandas dos anos 1970-80 e algumas emergentes do então aclamado cenário Grunge norteamericano. Me lembro de ver a Lita Ford, como voz feminina do documentário reclamando da cena de Seattle: "onde está o verdadeiro rock n´roll?"  Mal sabia a guitarrista que aquela sim era a última vertente verdadeiramente roqueira que o mundo viu até agora.
Lita Ford and Joan Jett - Runaways
Pois é. Com o punk o pessoal se ligou que não precisava saber tocar pra fazer música. Agora que o rock se encontra em estado de hibernação, os músicos das bandas brasileiras mais aclamadas viraram DJ´s. Quem sabe tocar não toca. E os garotos que antes queriam aprender a tocar para imitar seus ídolos, hoje querem aprender a mexer nas pick ups. 
E como sempre digo, o único universo que ancora o rock n´ roll brasileiro numa promessa de novas bandas é o sexo que sangra...
                                                                                                         Mundo Rock de Calcinha

A dor da felicidade efêmera

  • Jun. 28th, 2008 at 9:45 PM
Valéria Brandini - desassossego

Flores mortas no vaso. Felicidade efêmera que dói com perfume de jasmim.
Uma beleza que machuca, pois se apaga lentamente. Um esplendor sem vida. Silêncio na alma. Corpo cansado. Olhos vazios. 

A morte invade o momento que antecede o prazer e intensifica o esplendor das flores, pois é sabida. Como dias roubados, sequestro da experiência. Algumas notas pra lembrar depois.

Enigma of the Rose/Death (Visions Surrealiste/TAROT)

O perfume se vai e a luz em volta já não é mais a mesma. A vida não parece a mesma. Game on. Game over. Chess...Check mate.



Um dia vou abrir a janela e sentir o perfume de jasmim. Vou ficar triste e ser feliz ao mesmo tempo, pois vou lembrar... Mas não vou conseguir sentir.



Algumas vezes vou sentir falta de momentos sem tempo. O que terá acontecido? Como era tocar essas linhas que circundam os contornos de alguém que para mim já não tem rosto?

 Há uma dor que é doce, como as gotas de láudano em absinto, como a nota mais bonita no fim de uma serenata. Nela o que é belo morre sempre, pois meus dedos correram os domínios mais profundos de uma alma nua, que se vestiu de medo, que se perdeu de mim.

São agora apenas flores mortas marcando um livro. São dias sem horas, nomes sem rosto, corpos sem gosto. É outra manhã, vaso partido, sem o Sol na vidraça ... Pétalas sem cor no chão. Que recolho... Que escrevo... Que esqueço.

   

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886 dias, 5 horas e 27 minutos

  • Jun. 17th, 2008 at 12:52 AM
Valéria Brandini - desassossego



886 dias, 5 horas e 27 minutos. As flores de Narciso ainda me fitam na janela. Sou Eco a correr pelos campos de Frascatti, esperando tua voz para poder existir.



Risco seus traços na minha memória, entre o odor acre do vinho e a música das palavras que sobraram, sem letra nem sentido, pairando sobre as flores. 



Mas tudo isso me pertence, o tempo longo e os espaços vazios, as horas me fazem companhia em todos os lugares onde essa ausência me reconstrói outra. 



Ficou doce com o tempo, uma bebida amarga para lábios entorpecidos, engulo veneno por licor suave, uma dor mundana para curar outra sagrada. Mas é minha, toda minha... Como eu já não sou mais.



para N...


Onde o rock errou?

  • Jun. 7th, 2008 at 12:38 AM
Valéria Brandini - desassossego

Falos falsos e falácias. Cabelos longos e muito, muito pouco abaixo deles. O rock se enforca com sua própria corda e hoje, a antiga bandeira juvenil de resistência rebelde converte-se no antigo senso comum que oscila entre o misógino e a canalhice para atrair garotas fragilizadas. Como dizia o antigo mutante, "Onde é que está meu rock n' roll"?
Descobri numa recente visita a espaços "ditos" do rock paulistano o porquê de minha resistência em buscar conhecer novas bandas e espaços do gênero: a decepção é muito grande. 
Escrevi em meu livro "Cenários do rock", há dez anos atrás que o rap tomaria o lugar do rock em função de seu discurso romântico rebelde. Pois parece que agora estilos outrora negligenciados por sua falta de legitimidade enquanto proposta ideológica juvenil também já usurpam o trono do rock, como a música eletrônica e o pop.
Meninas, mãos à obra, o rock n' roll não é mais aquele, a hora e a vez do sexo que sangra é agora. Até que enfim a idolatria feminina por músicos que na verdade não conseguiriam atrair a atenção feminina por uma conversa meramente inteligível nem por frações de segundo cedeu lugar ao ímpeto de tomar os acordes e as batidas em suas mãos.

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Sangro com Benazir Bhutto

  • Dec. 27th, 2007 at 4:50 PM
Valéria Brandini - desassossego

Neste dia, sangram todas as mulheres.

       

Somos todas velas ao vento, na inconstância de um destino que não nos pertence. 

Me lembro hoje de quando li Simone de Beauvoir pela primeira vez, aos 12 anos, indicada pelo meu cardiologista, um feminista que havia tocado em Woodstock e que me dizia que a minha arritmia cardíaca pubertária era uma forma de suicídio "because I didn't fit in this world"... Duas décadas depois, me acomete hoje, o mesmo mal adolescente. Duas décadas de assédio sexual no mestrado, no doutorado, no pós doutorado, em mais de 5 empregos, duas décadas de condenação kafikiana em que morro feito um cão por tantas vezes com punhaladas no útero, esse o grande pecado que trazemos ao mundo e pelo qual pagamos desde o primeiro momento de nossa existência.
                                                  


                 
É claro que mais de vinte anos depois todos aqueles conceitos da Sra Sartre me pareceram de um radicalismo intransponível para a era atual, que minha mãe e todas as feministas de sua época padeciam de uma motivação reificadamente vingativa quando nos criaram para casar com a carreira e pisar forte sobre os saltos agulha.



Paulo Francis que me perdoe, mas no dia de hoje abraço "O segundo sexo" esquecido na prateleira e choro por todas nós, orfãs mais uma vez.

         



Certamente que o atentado contra Bhutto fora político, "nada" tve a ver com sua condição feminina. Mas... Cada pakistanês que hoje comemora sua morte comemora a morte de uma mulher, comemora o fato de que o dia de hoje envolve o coração de todas as mulheres oprimidas em países sexistas (mesmo os "sexistas cordiais") num fantasma de impossibilidade e fracasso.

                

Sangro com Benazir, com o útero de todas as mulheres nas mãos, com toda a culpa por gerar a vida que nos condena à morte...

Epistemologia dos Anjos

  • Dec. 21st, 2007 at 11:33 PM
Elucubração

Nos dias que entecedem a maior venda do nome de Jesus Cristo desde que Judas teve uma crise de ciúmes que  marcou a história ocidental, a figura dos anjos aparece como vinhetas barrocas assemelhando "valetes de chambre" de Jesus, sua prole e Papai Noel. Anjos são pornograficamente interessantes, pois são o não-ser sexual, espaço para devaneios e delírios, entre o sagrado e o profano. Mas o que mais atrai nesta figura é a sua condição de Observador Participante, de ser sem carne "pero con cuore". 

O anjo é o etnógrafo perfeito, ele é aquilo que todo professor de metodologia de pesquisa em antropologia busca ensinar como a perfeição do investigador empírico. Ele olha, ele vê... ele enxerga. O olho como a arma que toca o real sem interferir, o olho que sente, o olho que sofre, o olho que ri e que chora, o olho que é carne e que é alma, olho que sangra, olho de ciência convertido em poesia, porque ama o que vê. O olho do anjo que traiu a ciência (Deus) porque se entregou à empiria, à verdade de carne (homem)... O olho do anjo que perdeu a aura porque o amor macula, como no filme de Win Wenders.

Eros... anjo?
E como não amar, o suor e o escarro, de todo o verbo das malditas línguas e das palavras que cortam a carne e sangram a alma nas ruas de todos os povos e todas as letras, que de nada valem num dicionário que não contém a voracidade que não cabe na genética dos corpos, nem o odor acre de um hálito da noite em cada esquina onde Deus não aparece...? Mas manda que os anjos olhem... Por seus seres profanos
Sempre me perguntam porque eu escolhi ser uma observadora. Científica. Uma antropóloga. Esperam uma resposta recorrente, de uma cientista elegantemente racional. Mas a resposta, a verdadeira resposta é a de uma criança, que lendo Hemingway, (nas histórias em que o velho amigo do mar, enquanto menino, acompanha o pai médico ao acampamento índio) se deslumbra, numa quase epifania, não pela cultura ou pela lógica, mas pelo sentir do Outro. Há um quarto de século atrás, a história lida de um médico que, acompanhado de seu filho vai atender a uma índia em trabalho de parto numa aldeia dos USA, me abriu para, mais do que um Outro, um Duplo, de possibilidades infinitas do sentir, que me levou a questionar o que é o Homem por trás da máscara (muitas vezes mortalha) da cultura.

O médico, se não me falha a memória (após mais de 20 anos) atende à parturiente que sente dores agudas. Seu companheiro e pai do bebê encontra-se consternado com o sofrimento de sua mulher. Acompanhado do filho (Hemingway), o médico pede ao índio que fique na cabana ao lado de onde realizar-se-á o parto e que descanse em sua "cama" pois ao fim do processo, ele será chamado. A índia grita com dores fortíssimas no trabalho de parto. Por um longo período de tempo o som de suas dores é ouvido nas cabanas próximas. Ao final do parto, com a criança forte e saudável nas mãos, o médico pede a seu filho que chame o índio para conhecer seu rebento. Pálido e com olhos estatelados o pequeno Hemingway corre em direção ao pai. O índio suicidara-se.

Chocado e curioso ao mesmo tempo, o médico questiona o fim trágico que não compreende, mas que os nativos entendem muito bem. O índio tirou a própria vida por não suportar ver o sofrimento de sua amada. Não porque ela poderia morrer, (por receio que isso ocorresse), não como Romeu e Julieta, (por que não conseguiria viver sem sua cara-metade), mas por uma razão que escapa à Nossa cognição e sensibilidade: Porque não pôde vê-la sofrendo, porque ver a dor de sua companheira foi algo tão insuportável que o fez preferir a morte.
Anjo surrealista, Dali

Esta história me fez sentir o quanto o domínio do ser, constituído pelo sentir, em Outros povos, Outras culturas guarda uma seara do humano que não se encontra no nosso ethos, nós os modernos, nós os ocidentais, nós os cientistas, os escritores, os poetas e filósofos concebidos pela busca do futuro à "luz" evolução da moderna cultura ocidental. Esse o domínio, essa a seara que me seduziu como uma fábula seduz a uma criança que quer tocar o horizonte,me arrebatou não apenas pelos rituais e mitos, pelos trajes e políticas do Outro, mas pela natureza do sentir, cru e violento, não moldado pelos milênios da cultura "civilizatória" e predatória que nos restringe, mas por um oásis afetivo que guarda a essência que encanta os anjos e os leva a cair do céu...
William Blake

É essa mesma nudez da alma primitiva que me faz andar pelas ruas a olhar... A buscar essa "crueza" que escapa a qualquer método, pois a epistemologia do homem não é capaz de alcançá-la. No entanto, os anjos a observam... e a vêem. Não a tocam pois seus dedos não pertencem a essa dimensão, assim como os dedos de ciência, que pela voracidade da busca por conhecer arranham o sensível que ainda assim lhes escapa por entre estes. 

E me contento em olhar ... E sentir... E vez por outra, sussurrar em seu ouvido...

http://www.youtube.com/watch?v=bHc9_XSJjhg

 

Requiem em dezembro

  • Dec. 17th, 2007 at 12:02 AM
Valéria Brandini - desassossego
Hoje faz dois anos que vc partiu num vôo solitário rumo ao infinito, rumo ao concreto, rumo a qualquer coisa que eu nunca pude entender. Pensei em tantas coisas que queria te dizer F. e deixar aqui, na mesma internet que ainda quarda seu perfil no Orkut, do jeito que vc deixou, pra sempre, com suas últimas fotos, como se vc ainda estivesse por aí, bebendo cerveja com aquele monte de amigos aos sábados na sua casa.
Podia dizer tantas coisas e ainda assim não digo nada que valha, que significa, que console, que explique.
Apenas que demorei pra saber. Pensei, como dizem que se deve pensar que, quando alguém "some" (mesmo depois de ter te pedido em namoro de forma adolescentemente, romanticamente oficial num jantar regado a vinho no Vico do Scunizzo) não é porque morreu, está doente, ou internado, mas porque não gosta mais de vc. Neste caso, o improvável aconteceu. E eu, imaginando que havia levado um fora, nunca te liguei, nunca procurei, nunca soube.
Aquela garrafa de Lambrusco que vc deixou na minha geladeira ainda está lá. Todo dia penso em consumí-la, aí deixo pra depois, como se esperasse por alguma coisa, por alguém.
Escrevo para dizer que sinto culpa por tudo o que não sei, pelo que não vi, porque não percebi os sinais, porque não fui sensível à sua insensibilidade.
Sinto culpa porque a morte foi mais companheira do que eu, ela sim, foi minha rival. E vencedora. 

"Death be not proud, though some have called thee
Mighty and dreadfull, for, thou art not so..."


In this case, it would be proud...

hans-baldung-death-and-the-maiden.JPG
Hans Baldung - Death and the maiden

Fique em paz...
Valéria Brandini - desassossego
http://www.youtube.com/watch?v=qX_4A6d_Q-U&feature=related

Café da manhã na padoca.
--- "Um pão na chapa."
--- "Com manteiga?"
--- "Não!" Com manteiga só Marlon Brando."
Que saudade...Que saudade.



http://www.youtube.com/watch?v=auG0P6avo04
Valéria Brandini - desassossego
http://www.youtube.com/watch?v=dC0IAyUnCfA

Erros de português corrigidos duas horas depois quando consigo ler o que escrevo...rs

Nada mais esteriotipado do que o senso comum. Nada mais pungente, nada mais pontual. 
Me lembro que quando minha mãe, pedagoga militante pela educação de base, ao escolher as escolas mais longínquas, difíceis, rurais, para implantar novos projetos educacionais (me levando junto desde pequena como mamãe canguru, o que me permitiu a singular experiência de aprender a mijar em fossa e de brincar em chiqueiro com os bebês porquinhos, coisa que no colégio de freiras nunca pude fazer) enfrentava dificuldades  homéricas, desde insalubridade até o desvio de verba da merenda, buscava auxílio, com a maior desenvoltura, tal qual o personagem de Olivia de Havilland em "E o vento levou.." junto às senhôras das casas de rendezvous, as quais, tirando dinheiro de seus amantes importantes, assumiam as dívidas das escolas, articulavam politicamente por debaixo do pano e cuidavam, muito melhor do que qualquer dama de Rotary Club, para que nada faltasse aos alunos. 
Ela sempre me dizia "Ninguém sabe mais do que as prostitutas", me contando como, na sua infância, com 6 ou sete anos, ia em segredo até Sete Facadas, a zona da pequena cidade em que morava no interior, para comer bolo de fubá, ser maquiada, passar perfume e ouvir as histórias que carinhosamente as damas contavam com a pequena no colo. Certamente que meu avô, mestre maçon grau trinta e três nunca nem sonhou que sua filha partilhava, durante as tardes preguiçosas de verão, o mesmo ambiente que ele, nas vaporosas e profanas noites interioranas. Mas isso é outra história...
Fato é que sempre admirei o imaginário e o discurso popular, do senso comum mesmo, pois não apenas as prostitutas sabem de todas as coisas, mas também o sabem os taxistas, os porteiros, os sitiantes contadores de causos, os donos de buteco e, em especial, as empregadas e faxineiras... Que saber precioso! Algo que me levou à especialização em relatos de histórias de vida em antropologia, usando a ciência para justificar meu prazer dionisíaco em ouvir, por horas a fio, o que a dialética e hermenêutica de Habermas não poderia, como método, classificar sem se tornar uma tradução traidora de qualquer cosmologia local.
Foi num dia desses que minha arrumadeira interrompeu seus afazeres para, com o corpo apoiado sobre a vassoura e a mão na cintura, prestar atenção num episódio reprisado pela HBO de Sex and the City. Com uma impostação de voz digna de um discurso de pastor evangélico, ela disse: "É DONA DOTÔRA, A GENTE DÁ PROS CARA, OS CARA FODE A GENTE!"
Me ative a sentir a amplitude aquelas palavras tão fáceis e tão cheias de sentido, tanto àquele que minha ajudante se referia: "os homens copulam, magoam e deixam as mulheres", quantos tantos outros que conquistam lugar, entre best sellers que ganham as bancas e as enquetes de revistas femininas como "Homens são de Marte e Mulheres são de Vênus" (e eu particularmente quero ser de qualquer planeta longe de tanta bullshit) e a velha discussão que coloca mocinhas X bandidos nas diferenças entre as perspectivas femininas e masculinas na cama.
Não quero aqui discutir o sexo dos anjos corroborando os velhos arquétipos que colocam o ser masculino como um procriador que realiza a função sexual por prazer sem envolver afetividade e o ser feminino como uma criatura que busca no sexo o amor de sua vida, mas, certamente, os ditos trinta mil anos de cultura que moldaram corpos e mentes de ambos os sexos ainda restringem a sexualidade masculina a uma cruel mortalha de dominação, criando meninos para serem machos e não homens, razão de tentos bares sempre cheios de ogros de coração partido que sublimam sua carência sofrendo em meio às lágrimas por seu time de futebol.
Cada vez mais os homens abrem seu sexo à seara afetiva. Sofrem, pela já mencionada crise de categorias. Mas ainda vejo, com grande tristeza, mais para eles do que para nós mulheres, que o sexo ainda acaba sendo um instrumento masculino de limitação intencional da afetividade e de "redução da mulher" a um todo apenas corpóreo. Essa redução ocorre, muitas vezes, quando em face do encantamento de um homem por uma mulher, sua incapacidade (não necessariamente por sua culpa, pela pela educação que limita seu desdobramento afetivo) de lidar com a afetividade gera uma ansiedade tal que, como aquele velho ditado "se a única ferramente que vc tem é o martelo, todo problema é tratado como prego", o falo, a cópula, a foda perde seu sentido de prazer e ganha o sentido de arma, um grito de defesa por parte de alguém que se sente oprimido, ferido, fera que ataca quando sente medo. Se uma mulher bagunça a cabeça e o coração de um homem, o sexo é como um revólver que encerra o assunto, coloca a mulher numa gavetinha, tranca e joga a chave fora, pois a coloca, no melhor conceito Baudrillardiano, na produção em série que destitui o "objeto" de personalidde e valor afetivo.
Os judeus mataram Jesus, o ser humano destrói Gaia, o homem fode a mulher. 
Não que foder seja feio ou ruim na melhor acepção Bukowiskyana do termo. Não há filosofia melhor do que uma boa foda, essa sim, amiga do pensamento, do sentimento e de qualquer corpo abençoado por Deus, Aleluia. Se Deus condenasse uma boa foda dionisíaca como pecado, dela não nasceriam as criaturas de permitem a imortalidade do Homem, esta, justamente sua proximidade do Ser Supremo. Mas qualquer um que já fodeu com fúria, paixão e sublimação afetiva sabe a diferença de uma "boa foda" ao estilo Closer do Nine Inch Nails da "foda" a que se referia a minha ajudante.
Por isso digo sempre que antes de uma mulher virar freira ou mudar de time por desacreditar no gênero oposto, deveria ir passar uma temporada no interior da Itália, onde os homens mediterrâneos ainda vivem tal qual os antigos navegantes, em lugares como Circeo, onde Ulisses aprisionado pela maga Circe sublimava seu amor por Penélope num prazer metafísico. Andando por aquelas praias, as mesmas por onde, segundo Homero, Ulisses caminhava levando seu amor e saudade para passear consigo, conheci um tipo de amor e sexualidade muito diferente do que habita o Novo Mundo, onde o prazer sexual, quase tântrico, se realiza em se adiar o orgasmo ad infinitum e, assim como seus ancestrais navegantes, os mediterrâneos lá degustam "o prazer do prazer que não se consuma", vagarosamente, na contamplação daquele todo que dá sentido à existência e que é morto naquela Outra foda, assassinado no sexo como arma que mata o Eros quando a Psique masculina quer descortinar o afeto, açoitando-o com a aniquilação do ser num orgasmo insípido e solitário.
Nas noites de Circeo as estrelas cadentes mergulham no mar como beijos jogados ao léo, messages in a bottle, cenário para amantes que passam a madrugada estendidos na areia a contar fios de cabelo colados no suor dos corpos até que os pescadores cheguem com suas redes ateadas aos pequenos barcos, que empurrados pela praia vão levar pelas águas notícias de Ulisses. Quero ser Penélope. quero sempre ser Penélope...

Penelope à espera de Ulysses
Penélope à espera de Ulysses

Valéria Brandini - desassossego

Me botaram pra fora da Capela Sistina. Disseram que Deus não gostou dos meus ombros de fora...

Eu então me recostei nas colunas centenárias da Piazza San Pietro e posei só pra Ele...

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Fontana di Trevi

Há algumas semanas fui convidada pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) para ministrar uma palestra na pós-graduação Ciências Aplicadas do Consumo sobre GÊNERO, o masculino e o feminino na contemporaneidade sob o ponto de vista antropológico. Eu estava apresentando uma conferência na USP Leste, sob chuva torrencial numa sexta-feira quando isso me foi solicitado às 17:00hs, que eu estivesse na ESPM para tal fim às 19:30. Navegando por sobre um lago que se formara nos arredores da USP, fui rumo à Vila Mariana munida da cara-de-pau que me é atávica e de alguns poucos conceitos etnográficos que me vinham à mente sobre o tema, conduzida pelo dionisíaco prazer que me confere a antropologia em abrir as gavetinhas onde se escondem os estereótipos e reificações dos meus ouvintes para então misturá-los à antropologia reflexiva gerando uma bagunça de proporções tamanhas que impeçam a gaveta de se fechar novamente.

Às 19:31hs um público composto por diretores de empresa, economistas, administradores, empresários e uma gama de pessoas cujas funções de chefia são pronunciadas em inglês e escritas naqueles cartões de visita de papel importado com letras miúdas no canto e gramatura pesada que se amontoam no meu bolso depois de cada conferência, me aguardavam esperando informações preciosas para a geração de planejamento estratégico e mais dinheiro no bolso.

Não me bastasse o prazer de sem-querer-querendo desconstruir tudo o que a disciplina de psicologia havia trabalhado naquele semestre, a minha maior gratificação foram os olhares de surpresa e descoberta, além da roda de curiosos que se formou à minha volta após a palestra, quando os business men me perguntavam com uma inocência quase infantil coisas como “Então é natural das mulheres terem aversão aos homens sensíveis” ou “Então não sou só eu que sinto essa fragilidade junto com o medo de que os outros descubram”?

Percebi que, embora a Antropologia de Gênero não seja minha área de pesquisa atual, minhas inferências subsidiadas por experiências pessoais e teorias em muito embasadas no trabalho do Grupo Pagu (antropologia de gênero) da UNICAMP (onde desenvolvo o pós doutorado em Antropologia Empresarial) produzem eco quando tocam o âmbito da afetividade masculina.

Em minha apresentação tratei da contextualização do masculino / feminino na natureza e no comportamento primitivo para depois trazer a discussão para a crise de categorias na contemporaneidade. Após discorrer sobre elementos formais de gênero no paleolítico (cujas noções superficiais exponho na postagem anterior a essa) me ative à forma como ambos os gêneros encontram-se num processo de fragmentação e rearticulação de suas dimensões emocionais, físicas e intelectuais.

Pensemos bem: há um século atrás a escolha do parceiro era racional e operacionalizada em função da família (da noiva e do noivo), do dote e do interesse dos pais. Se havia casamento sem amor, havia amor fora do casamento, esta a única possibilidade da realização da afetividade plena. Durante séculos, milênios, poetas sonhavam com o dia em que a escolha do cônjuge pudesse obedecer às regras do coração, pois aí então, a felicidade sairia das odes e teria lugar na vida cotidiana. Em menos de um século de casamento por escolha afetiva, psicólogos, antropólogos e filósofos se deparam com algo nunca imaginado: Os casamentos realizados a partir do mais puro amor não estão dando certo! O amor pensado come cerne da relação não é a amálgama que traz a felicidade...

Por que? Teriam Romeu e Julieta vivido felizes para sempre? Ou ela teria buscado a saída para o cotidiano maçante e as diferenças de temperamento com o amado nos braços de outro veronese?

Por que antigamente as pessoas coabitavam com maior condescendência e mais afeto?

Talvez por que quando se comprava o produto, sabia-se o que viria dentro do pacote... As categorias homem e mulher eram estáveis, objetivas, definidas. Suas características eram visivelmente consensuais e de uma linearidade constante. Elementos como força, objetividade, agressividade, racionalidade eram tidos como domínio do masculino enquanto a sensibilidade, a fragilidade, afetividade e dispersão pertenciam ao território feminino.

Muitos soutiens queimados, abortos, pílulas e inserção no mercado de trabalho depois, as mulheres estão tendo o seu troco da forma mais inusitada possível: Se os homens sentiram-se ameaçados pela revolução feminina, se temeram pela rivalidade no papel familiar e no emprego, se torceram o nariz para a nova imagem da mulher, ativa, atlética, aventureira e pau-para-toda-obra, agora são as mulheres que não se conformam com a sensibilidade, a incerteza e a fragilidade masculinas.

A crise de categorias que se instaura no domínio dos gêneros tem agora sua segunda onda quando o masculino se rearranja enquanto persona em seu papel social e, curiosamente, as características que por tanto tempo as mulheres desejaram que fizessem parte do todo em seu parceiro, agora lhe são objeto de repulsa e escárnio. A sensibilidade, as lágrimas e o desmanchar-se em afeto que muitas sonharam na idealização do príncipe encantado são agora uma ameaça a qual negam veementemente existir, que rechaçam tal qual o sexo oposto rechaçou quando as calças compridas em pernas depiladas adentraram o universo dos escritórios e dos automóveis.

Não é difícil ouvir as queixas femininas em relação à vaidade masculina, onde frases como “isso me broxa num cara” referindo-se ao peito depilado, ao implante de cabelos e o arsenal de cremes, condicionadores e esfoliantes no banheiro do mancebo que um número hoje representativo de homens dispõe.

Estas mulheres, minhas e suas amigas, namoradas, esposas, primas, irmãs e mães não revelam nem assumem e talvez nem se dêem conta disso, mas estão agindo exatamente da mesma forma como os homens agiram na revolução feminina, quando as primeiras e ferinas queixas (principalmente em relação à vaidade feminina) eram desferidas contra o comportamento feminino (entrada no mercado de trabalho, calças compridas, o fumar, o beber, esportes, lutas e rock n’ roll), então considerado anti-feminino e “broxante” por parte de seus maridos, amantes, namorados e mesmo filhos e pais.

Na verdade, as mulheres não estão “broxadas” com essa reorganização da dimensão masculina caricaturizada por conceitos esdrúxulos como metrossexualidade, elas estão sim, acuadas em face da invasão do território feminino pelo Outro, por seu “oposto” que agora não parece tão oposto assim mas aposto a compartilhar dos rituais que definem, diferenciam e consagram o universo feminino. É o medo que os comportamentos tão “seus” como o choro, o ser sensível e o estar frágil deixem de lhe pertencer e lhe definir a partir do momento que são adotados e incorporados ao “ser homem”.

As mulheres estão se sentindo usurpadas em sua condição feminina. O que acontecerá se as lágrimas e a “manha” não lhe servirem mais como estratégia já que o Outro também reivindica para si tais comportamentos?

De sua parte, os homens sentem esse nó na garganta quando, com sentimentos à flor da pele, precisam reprimir suas emoções, adotar a postura que por gerações definiu “o que é ser homem” e que lhe foi passado por gerações de “machos” jurássicos. A angústia masculina é grande. A mulher conquistou seu lugar. E o homem? Será-lhe permitido a seara da melancolia, da instabilidade e do desassossego tão justificada pelas alterações hormonais femininas?

Valéria Brandini - desassossego
             Na maior parte da história humana, as mulheres tiveram seu primeiro filho em plena adolescência, na faixa que varia entre os 13 aos 19 anos, também passaram quase todo o resto de suas vidas gestando, parindo ou amamentando bebês, dificilmente com a forma corpórea não gestante/pós-gestante. A aparência da adolescente, a menina-moça, magricela e com as curvas ainda por serem formadas é a imagem do momento em que a mulher ainda não pariu, em que se está disponível a cortejar e escolher. É a mulher ainda intocada, não transformada fisicamente pela maternidade. Segundo os neurologistas evolucionistas, os homens sentem-se excitados por mulheres de aparência saudável, fértil e que nunca engravidaram antes, eles sentem-se impulsionados pela possibilidade de propriedade sobre a fertilidade feminina (ser o pai de todos os filhos desta mulher) já que: ¾ como as mulheres passavam a maior parte de suas vidas grávidas ou amamentando, elas eram estéreis 99% do tempo, já que a amamentação inibe a ovulação. Se uma mulher passasse dos 16 aos 42 anos tendo filhos, teria passado 6 anos grávida e 18 anos amamentando, ou seja, seria fértil, apenas 1% do tempo, não estando, quase nunca, receptiva ao sexo, ao prazer e dedicada ao seu parceiro. Assim, homens sentem-se atraídos pela condição nulípara isto é, de uma mulher que nunca teve um bebê, pois nesta condição, ela encontra-se receptiva ao sexo e dedicada ao amor e aos cuidados para com seu amante.

Em contrapartida, se as mulheres passavam 99% do tempo amamentando, parindo e gestando, encontravam-se em situação que inspirava cuidados e dedicação por parte do parceiro, o qual deveria cuidar desta mulher para que não lhe faltasse proteínas e vitaminas durante a gestação de seu filho, que pudesse estar protegida no caso de um ataque de tribo rival  ou de animais ferozes (pois locomovia-se com dificuldade) e que tivesse um certo conforto pois as transformações de seu corpo geravam dores e incômodos. Desta feita, é natural que ainda hoje as mulheres sintam-se atraídas por homens que lhe dediquem cuidados, que sejam bons provedores, que zelem pelo seu sustento, que a protejam e que demonstrem a força de um caçador (que lhe trará proteínas) e a coragem de um guerreiro (que a protegerá de inimigos e amimais). Não é difícil imaginar a razão pela qual mulheres sejam seduzidas por homens de poder e dinheiro, pela força física masculina e por presentes que demonstrem a dedicação masculina. São trinta mil anos de uma divisão social do trabalho, da vida e dos gêneros que apenas cem anos de liberação feminina dificilmente irão reverter em pouco tempo.

London flesh and culture

  • Nov. 25th, 2007 at 4:56 PM
Valéria Brandini - desassossego

   Londres, 2001. O antigo estábulo do século XVII com suas paredes de tijolos aparentes e suas galerias profundas de caminhos tortuosos abrigam um verdadeiro caleidoscópio de estilos distribuídos em pequenas lojas ao longo do coração de Candem Town. O centro dos grupos de estilo de Londres, as chamadas tribos, se estende pela notória Candem High Street. Entre os estilos mais radicais, as mais variadas composições indumentárias, sapatos, casacos e chapéus, por mais ousados e excêntricos, não são tão marcantes quanto o resultado das técnicas empregadas no chamado body modification ¾ tatuagens, piercings, brandings, escarificações, dilatações (de orelha), estreitamento (de cintura) entre tantas outras formas de marcar o corpo para a caracterização de um estilo, da composição estética corporal que contribui para promover a identificação de uma dada cultura.
Descendo por um dos corredores da galeria, ao lado do rio que cruza Candem High Street, passando pelos jamaicanos que tentam vender haxixe para todos os que atravessavam o bairro, uma pequena loja escondida é o maior atelier de tatuagens e body piercings de Candem Town ¾ apenas para iniciados. Ao lado de estreitas escadas de madeira e espalhadas por todas as paredes, dezenas de fotos de aborígines das mais distintas regiões do globo exibem tatuagens, pinturas corporais, escarificações, entre uma infinidade de técnicas de ornamentação de corpo que deixariam Malinowski curioso.
Jonathan, o tatuador chefe me mostra livros com fotos de nativos da Nova Zelândia e me diz: ¾ Quero fazer uma coisa mais ou menos assim, mas com uns piercings modernos e desenhos futuristas. Seria uma mistura de totens aborígines com criaturas futuristas de Giger (desenhista europeu criador da figura de Alien), com escarificações primitivas misturadas a piercings de metal cirúrgico. Minha primeira idéia (voz da antropóloga) foi que isso mais parecia uma busca romântica associando o resgate do homem primitivo que se depara com os heróis pós-modernos, mas que, na verdade, é a pura pós-modernidade: tudo ao mesmo tempo agora. Seja na moda (pela construção de um corpo que antecede a roupa), na religião (e a comunhão com Jesus Cristo através do corpo sagrado comido), no direito (e o confinamento do corpo como condenação social) ou nas artes (o corpo representando os estados e significados do ânima), nada é mais representativo do que ‘marcar’ o corpo como atribuição de significados de uma dada cultura. 
Correndo os olhos pelas galerias eu procurava pedaços da carne rosácea tipicamente inglesa entre as marcas de tinta que tomavam aqueles corpos. Toda a carne marcada com cor de cultura e brilho seco de sangue sobre a tinta das tatuagens era parte de uma alucinante instalação onde até o ar tinha cor neon. Os sons eletrônicos numa deliciosa dissonância em relação às cítaras e acordes de guitarra que ecoavam dos pubs do lado oposto da calçada me levaram para o outro lado do espelho, onde Alice dizia com piercing nos dentes e um doce na língua que meu nome era no more...
A alteridade era como um conto infantil onde o cisne queria trocar de roupa e pele e os patos todos seguiam o odor de haxixe rumo ao lago que cortava as galerias de Candem. Sob a ponte onde eu observava o tempo correr junto com as letras escritas num papel amarelo que eu chamava de diário de campo, jamaicanos queriam ser ingleses em calças de tartan, ingleses queriam ser indianos com caminhos de hena sobre o corpo, middle-easterns queriam ser easterns em ternos de veludo cotelê swinging London e eu só queria ler aquela polifônica poesia com olhos de criança que quer apertar o mundo com as mãos.
Se eu pudesse ter palavras para compor a ciência com os olhos frios de um observador distante que engole a fúria da cultura e descreve o sabor de todos os cosmos que existem em cada pedaço de pele adornada... Se os meus dedos pudessem tocar todos os saberes daqueles que vejo e que sinto em meu coração com com a magia profana de xamã a incorporar a dor e a magia do Outro... Seria a antropologia o desenho de um coração feroz que se ilumina com o ser-todo-que-não-sou Daquele que sob a ponte me fita com olhos de alteridade, olhar por onde navego e me descubro, perdida nos corredores de Candem Town.
Mas eu me sento na calçada, com a alma sob os pés, a espera de Mohammed, que sei que não virá, não falará mais sobre o azul do Mar Morto ou os jardins do Império Persa, nem do fogo de Zoroastro, o mesmo que me consumiu em noites frias de novembro em Warrick Gardens, em mãos cerradas de pele branca e cabelos negros, com olhos profundos, entre dor e alegria. Um pequeno cachorro se senta ao meu lado. Vê que estou sem dono. Acho que tem pena de mim.


Candem Town


Valéria Brandini - desassossego

Breve elucubração em busca de um projeto de pesquisa...

 

Há cinco décadas elas habitam um verdadeiro limbo identitário. Para além de uma categoria, um gênero, um símbolo, as mulheres encontram-se na província a elas destinada por 50 anos de rock ¾ entre a bruxa ou a prostituta, entre o anjo e a donzela ¾ são objeto dos sonhos e desejos, dos anseios e mágoas masculinos, mas dificilmente, num universo onde o sexismo é muitas vezes assumido como prática que exalta o próprio estilo musical[1], mulheres são O SUJEITO.
“O que dá ao objeto seu valor é a relação com o outro.”[2]

Durante o desenvolvimento de uma extensa pesquisa de campo para a elaboração de nossa dissertação de mestrado, um trabalho sobre o rock alternativo enquanto canção de consumo nos anos 90 no Brasil, o qual converteu-se no livro “Cenários do Rock”[3], a observação participante como prática de pesquisa empregada, associada a pesquisas teóricas que elucidavam o sexismo nos grupos de estilo rockers, nos proporcionou a apreensão da condição feminina no universo marcadamente masculino e sexista do rock.

Foram abordadas nesta pesquisa, questões relativas às origens deste subgênero e a rearticulação de seu conteúdo musical no País, assim como as formas de produção, relações de mercado e problemas enfrentados em sua comercialização. A trajetória do rock alternativo, do underground ao mainstream, foi apresentada de forma a permitir uma "incursão" pelo universo social e de produção desta música. Uma exposição dos níveis e fases que representam esta trajetória serviu à reconstituição da realidade vivenciada por bandas, público, produtores musicais entre outros profissionais, grupos e instituições que participam deste universo. Nesta pesquisa, o papel social e a posição das mulheres no grupo de estilo rocker, embora não fosse foco de investigação, nos suscitou questionamentos que necessitariam de uma pesquisa aprofundada para serem elucidados.

Percebemos que a concepção por parte da comunidade rocker ¾ em sua grande maioria masculina ¾ da mulher como indivíduo pertencente ao grupo, como membro desta comunidade, como musicista ou membro de uma banda, desfrutando da mesma legitimidade social e consideração por parte dos outros membros, é muito limitada, muitas vezes, praticamente não existe. Mesmo havendo garotas que freqüentam os mesmos espaços de socialização do grupo de estilo que os membros masculinos, ou tentam integrar uma banda, não altera a concepção socialmente introjetada que não confere legitimidade ao sexo feminino nestas comunidades. Garotas rockers podem freqüentar os mesmos espaços geográficos de socialização que os garotos, mas o espaço social entre os dois sexos e a hierarquia que se manifesta entre os mesmos, as deixam à margem das estruturas de poder do grupo.

Neste contexto, percebe-se que a exclusão do sexo é acompanhada, paralelamente, por uma exaltação da figura feminina como objeto de relação entre os rockers do sexo masculino. Esta figura está presente nos assuntos abordados pelo grupo, como objetivo compartilhado quando os membros masculinos do grupo se unem para sair (como a paquera, a “caça”, “fazer” a garota, “ganhar” a mina) e, conseqüentemente, é assunto de grande parte das canções das bandas de rock. Porém, ao invés de ocupar a posição de sujeito real que se relaciona diretamente como membro do grupo e com os membros do grupo, a mulher é justamente o objeto (conforme o pensamento de Radcliffe-Brown) de uma atitude ritual que reflete uma forma tradicional de comportamento em relação a este objeto conseqüentemente, a esta sociedade.(RADCLIFFE-BROWN, 1952: 123)

A exaltação da sexualidade masculina subjugando a mulher como indivíduo marca a  presença constante da figura feminina em canções de rock. Mesmo nas “baladas” (canções românticas), quando esta figura, sempre platônica, é sacralizada na figura da mulher amada, ela representa uma imagem distante que se encontra do lado de fora do universo do rock.. Imaculada, a figura feminina neste contexto expressa a relação de oposição entre o sagrado e o profano, onde, conforme José Carlos Rodrigues em O tabu do corpo, “o ser sagrado é proibido e não pode ser violado, não pode ser tocado, está permanentemente protegido desse confronto pelas interdições que o isolam e protegem do profano”.(RODRIGUES, 1986: 25) Desta forma, a figura da mulher amada das canções não pode ser maculada pelo contato com o universo do rock, um universo que exalta a poligamia e a licenciosidade, cujas mulheres que dele participam, em grande parte, groupies[4], poderiam ser classificadas como o oposto simétrico da figura da “escolhida” ¾ o que reflete a idéia de Rodrigues, de que a atitude ritual básica para com o sagrado consiste em não permitir que este entre em contato com o profano.

Paralelamente, a figura feminina da bad girl, ou seja, uma figura cuja amplitude de atribuições de características esteriotipadas por parte dos rockers compreende da feiticeira à stripper, é a figura profana idealizada e objeto de delírios sexuais adolescentes que está presente em grande parte das canções que fazem menção às mulheres. Esta figura profana, diametricamente oposta à figura da mulher amada, é uma figura também venerada, pois expressa, na atitude ritual dos rockers para com ela, algumas das principais estruturas de significação que constituem a cultura rocker: a afirmação da sexualidade masculina subjugando a figura feminina; a utilização da mulher como um objeto da relação entre os homens, neste caso, promovendo o estreitamento dos laços que constituem a solidariedade masculina no universo do rock e a utilização do sexo como uma atitude simbólica de ruptura para com padrões que expressam valores cultuados na sociedade.

Tal qual o pensamento de Radcliffe-Brown em Estrutura e função na sociedade primitiva, onde se entende que a sacralidade (neste caso, o autor substitui a idéia de sacralidade desenvolvida por Émile Durkheim por atitude ritual em relação ao objeto) não está centrada no objeto, mas na atitude para com ele (RADCLIFFE-BROWN, 1952: 164), na relação propriamente dita, a sacralização da mulher amada, e, mesmo a profanação da bad girl representam elementos de identificação e interação da porção masculina na comunidade rocker.

Esta atitude ritual para com a figura feminina como objeto da relação entre membros do grupo de estilo, acaba por servir como expressão e manutenção da solidariedade do grupo, pois é uma expressão de poder e afirmação cujo foco é a relação entre os membros masculinos da comunidade ¾ estes, os verdadeiros sujeitos da relação.

Este distanciamento no interior do grupo, mesmo quando sutil, é função de uma categorização e hierarquização, como, se numa mesma comunidade, houvesse o “nós” e “os outros”, neste caso ¾ “elas”. Quando uma communita do sexo feminino passa a ser considerada como “nós”, geralmente é porque sua categorização como indivíduo do sexo feminino cedeu lugar à assexualização. Como exemplo, no movimento Grunge, nos anos 1990, as bandas femininas mais consideradas pelos fãs e por outras bandas, eram aquelas que subjugavam a própria condição feminina para “ascender” ao grupo dos homens, como as garotas da banda L7, com as quais tivemos contato durante o Festival Hollywood Rock de 1993: “O que as colocava em pé de igualdade na relação de poder com as bandas de grande nome no rock (em geral, bandas masculinas), é que as integrantes do L7 abandonavam todas as características “ditas” de feminilidade, elas tentavam ter atitudes rudes tipicamente masculinas, vestiam-se como os rapazes das bandas de Seattle, não usavam maquiagem, não penteavam os cabelos e não expressavam nenhum tipo erotização nos palco, coisa não típica das bandas de rock”.[5]

L7Word02.jpg image by MrClivverL7

Assim sendo, a supressão das características femininas parece ter o efeito de permitir ao membro feminino da comunidade rocker tornar-se parte do “nós”. Neste contexto, muitas garotas adotam posturas masculinizadas para serem aceitas no grupo, em especial, em grupos de estilo de rock pesado, como os headbangers, pois ao mínimo sinal girly action, atitude feminina, coisa de garotas, sua legitimidade como membro do grupo passa a ser questionada.

Esse tipo de sexismo é mais forte no que diz respeito a mulheres musicistas ou membros de bandas, pois, aos olhos de grande parte dos músicos de rock, a condição feminina e o virtuosismo musical são coisas que se excluem reciprocamente. Uma instrumentista do sexo feminino parece ter que provar, sempre em dobro, sua competência musical em relação aos músicos homens. Preconceito este, que é percebido não apenas entre os músicos, mas também entre os fãs e, até mesmos, entre as fãs do sexo feminino, como veremos a seguir.

 

BREVE REPERTORIZAÇÃO HISTÓRICA DAS MULHERES NA MÚSICA ROCK

 

Tendo a música rock se iniciado nos idos dos anos 1950 com o rock n’roll de Bill Halley, foi só a partir dos anos 1960 que o sexo feminino introduziu-se timidamente neste cenário, inicialmente foram as crooners, garotas que cantavam baladas integradas em sua maioria apenas por homens, posteriormente, com o início da revolução sexual e a ascendência da música folk em convergência com o rock, célebres mulheres como Joan Baez e, posteriormente, a diva Janis Joplin, passaram a integrar a cena musical do rock como compositoras e intérpretes.

No Brasil, a saudosa Celly Campelo, irmã do produtor Tony Campelo, é reconhecida como a primeira mulher a cantar rock no Brasil, interpretando versões em português de sucessos internacionais. Posteriormente, ícones da Jovem Guarda como Vanderléia,  a “Ternurinha” e Martinha, o “Queijinho de Minas”, representavam a presença feminina no movimento Jovem Guarda, à sombra de artistas como Roberto e Erasmo Carlos e bandas como Renato e seus Blue Caps, cujos maiores sucessos limitavam-se a versões das canções de sucesso de estrelas norte-americanas. Mas foi Rita Lee, a ‘Rita Rata’, integrante da banda Os Mutantes, que marcou a inserção das mulheres do cenário do rock brasileiro não apenas como rostos bonitos na linha de frente dos palcos, mas como compositora e intérprete, além de tocar instrumentos trazer uma nova imagem de uma mulher integrando uma banda de rock, como não a intocável musa, mas como ‘band mate’, isto é, tal qual Janis Joplin “ela era um dos caras da banda”.

A figura de belas crooners “à frente” de uma banda masculina nos anos 1960 ilustrava a posição da mulher como ‘diva num pedestal’, não necessariamente acima, mas à parte, elas encontravam-se numa posição diferenciada em relação aos outros membros da banda, ao quais, em muitos casos, tocavam na parte de trás do palco e não apareciam nas capas dos discos. Tal posicionamento, em termos simbólicos, principalmente nas performances de rock, ilustravam a sacralização a imagem da mulher como alguém à parte do contexto instrumental das bandas, uma separação que, embora ‘glorificasse’ a imagem das cantoras como musas, por outro lado também ilustrava o quanto a figura feminina não era aceita como instrumentista, uma figura posicionada à parte da criação e execução musical, certamente, longe das estruturas de poder neste universo.

 

O REVERSO DA MOEDA: A MÚSICA ELETRÔNICA E AS DJ’S FEMININAS

     

Nos idos dos anos 1990 a cena clubber (dos freqüentadores de night clubs – casas noturnas) ascendeu do “gueto gay” (as  comunidades homossexuais) e das festas fechadas para o universo da juventude consumista e dos grupos de estilo que tomam a metrópole como seu território. A evolução das experimentações eletrônicas associadas a melodias conhecidas e muitos loops[6] saiu do circuito fechado de festas de petit comitê dos assim auto-denominados ‘modernos’ e ascendeu às festas rave que reuniam dezenas de milhares de pessoas.

Esta cultura teve sua origem, curiosamente, nas praias do Mediterrâneo. Para os que já tiveram a oportunidade de passar o verão na Itália ou Espanha, é conhecido o fato de que, durante esta estação, as casas noturnas e bares fecham na cidade (zona urbana) e abrem-se versões destes espaços nas praias, onde as casas noturnas têm suas pistas de dança alocadas justamente na areia, estabelecendo-se uma boate ao ar livre, bem em frente ao mar. Esse evento que data de décadas, tomou maiores proporções através das festas realizadas ao ar livre nas praias de Ibiza, na Espanha, onde os indivíduos responsáveis pela música tocada nas pick ups (vitrolas), os assim chamados disc jóckeis, ou dj’s, passaram a fazer experimentações e misturar estilos e efeitos sonoros e ganhar popularidade e notoriedade pelo trabalho efetuado.

No Brasil, a ascensão da cultura clubber foi acompanhada de perto em nossas pesquisas junto à indústria fonográfica e grupos de estilo juvenis. Inicialmente, os communitas reuniam-se em espaços como o Hell’s Club, no porão do antigo Columbia, na rua Augusta, durante o horário das 4:00am até o meio dia dos sábados, no chamado after hours, esta cultura e suas práticas foram proliferando e penetrando outros universos até chegar à classe média alta da metrópole paulistana.

Uma das principais características deste universo, era, não apenas a ascensão da figura do dj à legitimidade desfrutada pelos músicos, mas também o grande número de mulheres que passaram a “assumir as pick ups”, exercendo a função de dj’s com total aceitação por parte da comunidade clubber.


Durante nossas pesquisas junto ao universo da música, percebemos o quanto a relação entre mulheres e práticas musicais e mulheres e posicionamento hierárquico junto ao grupo é diametricamente oposta na cena clubber em relação à cena rocker. Uma das determinantes fundamentais neste contexto é a relação entre sexualidade e valores na cultura clubber. O sexismo existente em outros grupos de estilo cede lugar à abertura às experimentações sexuais aceitação da diversidade sexual que imperam neste grupo. Percebemos que a idéia de amor livre, numa releitura cibernética dos anos 1960 associada ao uso do ecstasy, a chamada droga do amor, promove um sentido de sexualidade associado ao amor pela figura humana, independentemente de seu sexo, fato que certamente atrai indivíduos de várias opções sexuais e que, ao contrário da afirmação da figura do “macho” existente na cultura rocker, leva muitos freqüentadores da cena clubber a experimentar novas opções sexuais.

Assim sendo, a figura feminina no universo clubber encontra-se em pé de igualdade com a figura masculina, ao contrário do que acontece no universo rocker, a sexualidade não é uma dimensão de poder explorada por um dos lados da moeda (no caso, o masculino), mas sim, parte dos valores de uma cultura onde a diferença entre sexos não é um problema, mas sim, a possibilidade de novas experimentações e onde a escolha por parceiros do mesmo sexo é legitimada como um valor inerente à cultura do grupo.

 



[1] Como quando Paul Stanley da banda KISS declara: ‘Não acredito que quem não tem bolas possa tocar rock’.

[2] LÉVI-STRAUSS – As estruturas elementares do parentesco.

[3] BRANDINI Valéria. Cenários do Rock, São Paulo, Ed. Olho D ‘água, 2004.

[4] Fãs de músicos de rock que estão sempre atrás de seus ídolos buscando, na maioria dos casos, contato sexual com os mesmos.

[5] Voz da pesquisadora


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